segunda-feira, 16 de novembro de 2009

2012

"Roland Emmerich: orgulhosamente destruindo o mundo desde 1996". Este deveria ser o "slogan" deste diretor alemão que se especializou em elevar o gênero do "disarter movie" quase que a uma forma de arte. Em 1996 ele lançou "Independence Day", em que alienígenas hostis destruíam ícones americanos como a Casa Branca e o edifício Empire State com raios poderosos. Na época, as cenas de destruição em massa foram consideradas espetaculares. O próprio Emmerich foi mais longe na destruição do mundo em seu "O dia depois do amanhã", em 2004. Agora ele lançou o "disaster movie" mais espetacular de sua carreira e, provavelmente, de toda história do cinema. "2012" não se limita a mostrar alguns prédios explodindo ou pessoas morrendo. O filme mostra a Natureza engolindo cidades inteiras em gigantescos terremotos, que são seguidos por tsunamis, acompanhados por vulcões, chuva de lava fumegante, fumaça e assim por diante.

John Cusack interpreta o típico "herói" de Emmerich, um cara inteligente, abandonado pela mulher e sub-aproveitado em alguma ocupação inferior à sua real capacidade. Ele é pai de um casal de crianças e os olhos de sua ex-mulher Kate (Amanda Peet) ainda brilham quando ele aparece para buscar os filhos. Ele é um escritor que vendeu menos de 500 cópias de seu livro de ficção científica mas, ainda assim, é reconhecido quando é pego pelo governo em uma área proibida do parque Yellowstone. O elenco ainda conta com Chiwetel Ejiofor como o cientista que, auxiliado por colegas da Índia, descobre que o mundo está para terminar em alguns anos, devido a neutrinos perigosos enviados pelo Sol. A data, 2012, coincidiria com antigas previsões Maias que marcam a data como o fim do mundo. Ejiofor, Cusack e Peet são acompanhados no elenco por participações especiais de Woody Harrelson como um locutor de rádio maluco que também havia previsto o fim do mundo, por Danny Glover como o presidente dos Estados Unidos e por Thandie Newton como sua filha.

É um filme de efeitos especiais, e os 250 milhões de dólares do orçamento podem ser claramente vistos na tela. O roteiro é formado por uma série de sequencias que envolvem antecipação, desastre natural e fuga espetacular dos heróis de perigos cada vez maiores. E quem foi ao cinema para ver cenas de destruição não vai sair decepcionado. As fugas começam com uma limosine que consegue fugir da onda de choque de um terremoto em Los Angeles, seguida por outra sequencia espetacular em um avião particular em que o espectador é levado pelo ar enquanto edifícios inteiros se desintegram à sua volta. "2012" é desnecessariamente longo, com duas horas de quarenta minutos de duração, e a parte final se arrasta. Claro que é absurdo e não deve ser levado a sério nem por um segundo. Mas é o tipo do filme em que se deve deixar o cérebro na sala de espera do cinema e se divertir.


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Besouro

"Besouro" era o apelido dado a Manoel Henrique Pereira, filho de escravos que, mesmo nacido após a Lei Áurea, ainda sofreu muito com os reflexos da escravatura. Mestre em Capoeira, ele se tornou um mito no Recôncavo Baiano por seu modo de lutar e por enfrentar os senhores de engenho que ainda tratavam os negros como escravos. Ele lutava tão bem e realizava proezas tão prodigiosas que criaram-se várias lendas a seu respeito, como a de que podia voar.

Pois bem, chega agora às telas uma superprodução brasileira sobre ele. Mas o filme não sabe direito a que veio, se para contar a história do homem ou do mito. Dirigido por João Daniel Tirkhomiroff, "Besouro" não se decide entre ser um filme de artes marciais, um registro histórico ou uma fantasia sobre o mito de Manoel. Extremamente didático, começa com um letreiro falando sobre a capoeira e situando o filme no tempo. O letreiro é lido redundantemente por ninguém menos que Milton Golçalvez, praticamente a voz "oficial' do movimento negro no país e, por um momento, pensamos se tratar de um documentário. O roteiro, de Patrícia Andrade, trata de uma série desconexa de clichês previsíveis, como o início, em que vemos o jovem Besouro (Aílton Carmo) jogando capoeira enquanto seu mestre anda sozinho pela cidade. Didático novamente, o roteiro faz questão de colocar na narração e em falas dos personagens que Besouro deveria estar tomando conta de seu Mestre, o que já telegrafa o óbvio ao espectador: o mestre vai morrer nos próximos minutos.

Espera-se então que surja o mito, a transformação do jovem Manoel em Besouro, mas o filme, inseguro sobre como tratar de seu herói, perde seu tempo com os estereotipados personagens secundários. Há o "coronel" Venâncio (Flávio Rocha) e seus capangas, liderados por Noca de Antonia (Irandhir Santos), todos brancos, sujos e cruéis. Há os colegas de Besouro no engenho, como a jovem Dinorá (Jéssica Barbosa) e Quero-Quero (Anderson Santos de Jesus). Há várias cenas em que vemos os brancos maltratando os negros, enquanto Besouro... onde está ele?

O coreógrafo de lutas chinês Huen Chiu Ku, de Kill Bill, foi contratado para planejar as cenas de luta. Assim, era de se esperar uma espécie de filme de artes marciais brasileiro. A capoeira é uma modalidade apreciada e valorizada no mundo inteiro, pela sua combinação mortal de giros e movimentos de pernas. Aliada à coreografia de Chiu Ku e aos efeitos especiais digitais produzidos pela produtora Mixer, era de se esperar um filme de ação espetacular, recheado de grandes cenas de luta. Mas o roteiro se arrasta. O herói do filme, interpretado por Aílton Carmo, é uma figura pálida e completamente sem carisma. Ele é visto em cenas no meio da floresta ou em cachoeiras e é figura praticamente ausente do filme. Os orixás das religiões africanas também são apresentados de forma didática, um a um, pelo narrador, enquanto o tal "herói" se forma e ficamos esperando por alguma ação. O problema é que como nenhum dos vilões, os brancos, sabe jogar capoeira, não há como mostrar muitas cenas de lutas, e o filme acaba perdendo com isso. A trilha sonora é anacrônica, usando alguns instrumentos modernos, que até funcionam. Não se pode dizer o mesmo de certos diálogos, que contém expressões como "terminar com o namoro", entre outras, que soam fora de época e lugar.

Com menos didatismo, um herói mais carismático e muito mais cenas de lutas, "Besouro" poderia ter sido grande. Infelizmente, não é o caso.


domingo, 25 de outubro de 2009

Gigante

A idéia de "Gigante" pode ser descrita em uma frase, de tão simples que é. Mas o filme do argentino Adrian Biniez (feito no Uruguai) levou o Urso de Prata em Berlim e os kikitos de filme estrangeiro, roteiro e crítica no Festival de Gramado.

O "gigante" do título é um segurança chamado Jara (Horacio Camandulle), que faz o turno noturno em um supermercado de Montevidéu. Sua vida é marcada por uma rotina extrema. Chega às onze da noite, coloca o uniforme, senta-se diante de um monitor de video e fica observando o supermercado vazio, a não ser pelo pessoal da limpeza. Ele é um homem "grande", alto, que fica escutando rock pesado nos fones de ouvido o tempo todo e anda com camisetas de bandas. Mas esse exterior assustador esconde um segredo; Jara é um homem tímido, que está apaixonado por Júlia (Leonor Svarcas), uma faxineira do supermercado. A princípio, ele a acompanha somente através das câmeras de segurança, mas depois começa a segui-la pelas ruas da cidade. O filme é extremamente simples, com poucos diálogos e personagens. É também de um romantismo quase ingênuo, mostrando o amor deste "gigante" pela garota da faxina, a seguindo por todos os lados mas não tendo coragem de se declarar para ela.

O filme também mostra a rotina e os "bastidores" do supermercado, visto quase sempre nas áreas de serviço. Os funcionários estão em uma disputa trabalhista com os chefes, e esta é uma história paralela ao romance entre Jara e Júlia.

Com apenas 84 minutos de duração, "Gigante" poderia perfeitamente ter sido um curta metragem, em sua simplicidade. Como longa, por vezes se arrasta um pouco, mas há boas idéias visuais, como a cena que mostra Jara, em primeiro plano, na calçada em frente à praia. A perspectiva faz um truque e este homem tímido e indeciso, neste momento, ganha forças e parece realmente um gigante comparado às figuras diminutas em segundo plano.


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Distrito 9

Eles chegaram em 1982. Sua gigantesca espaçonave não parou sobre Nova York, ou Paris, ou Londres, mas sobre Joanesburgo, a maior cidade da África do Sul. Após três meses sem dar sinal de vida, os humanos resolveram invadir e lá dentro encontraram os "Camarões", extraterrestres parecidos com crustáceos, famintos e doentes. Havia um milhão deles, e eles foram trazidos para a cidade e fechados em uma região chamada "Distrito 9". Lá eles foram separados dos humanos e permaneceram desde então, vivendo em condições sub-humanas, ou melhor, sub-extraterrenas, em uma gigantesca favela onde reina o contrabando de armas, o mercado paralelo de armas, drogas e prostituição. Vinte e oito anos depois, a empresa privada MNU (Multinational United) foi contratada para remover pacificamente os 1,8 milhões de extraterrestres de Joanesburgo para uma área fora da cidade. Eles não são bem vindos aqui.

"Distrito 9" é um dos filmes mais originais de ficção científica dos últimos anos. Ele tem todos os ingredientes do gênero, como espaçonaves vindas dos confins do Universo, extraterrestres, armas com alta tecnologia e efeitos especiais. Ao mesmo tempo, é uma alegoria bem bolada dos problemas que afligem o nosso planeta. Este é um filme de monstros em que os vilões, curiosamente, não vêm de fora. Os monstros somos nós. "Distrito 9" mostra como os seres humanos podem ser preconceituosos e violentos com o que é diferente. Os milhares de extraterrestres são mostrados em situações degradantes na grande favela que virou seu "campo de refugiados". Vivem procurando comida no lixo, inclusive "crianças pequenas", e sentimos repugnância pelo seu modo de vida. Feito como se fosse uma pseudo-reportagem, o filme lembra um pouco o estilo empregado em "Cloverfield", ano passado, que foi feito todo em "primeira pessoa", simulando um visual amador. "Distrito 9" é menos radical, mas o diretor Neill Blomcamp usa muito de câmeras operadas sem tripé e do ponto de vista de um repórter cinematográfico que foi chamado para acompanhar o "despejo" dos extraterrestres.

O resultado é um filme muito interessante, que ainda conta com entrevistas de "especialistas" como psicólogos, políticos e jornalistas. A companhia MNU é claramente baseada nas empresas militares privadas que os Estados Unidos tem usado em suas campanhas no Iraque. Composta por mercenários, eles são assassinos comandados pelo Coronel Koobus (David James). O personagem principal de Distrito 9 é Wicus van der Merwe (Sharlito Copley), genro do dono da MNU e o encarregado pela evacuação do Distrito para fora da cidade. Wicus é um burocrata da pior espécie, político e sorridente para as câmeras mas claramente um cafajeste. Ele toma uma dose do próprio remédio quando, infectado por um líquido estranho, começa a se tornar um extraterrestre. Ele é levado para o quartel general da MNU, que vê sua metamorfose com interesse, visto que as armas alienígenas só respondem ao DNA dos extraterrestres. Novamente, a situação é uma alegoria da ganância das empresas militares multinacionais, que fariam de tudo para lucrar com uma situação. A parte final é um pouco decepcionante, composta por perseguições impossíveis, explosões e tiroteios. "Distrito 9" foi produzido por Peter Jackson, de O Senhor dos Anéis, que também produziu todos os efeitos especiais. O título é uma menção ao "Distrito 6", região que teve muitos problemas, na Cidade do Cabo, durante os anos do Aparthaid.

sábado, 10 de outubro de 2009

Bastardos Inglórios

ATENÇÃO: O TEXTO ABAIXO ENTRA EM DETALHES DA TRAMA DO FILME
O filme é de uma imoralidade sem limites. Em uma cena, um soldado alemão é interrogado por seus captores americanos sobre o local das tropas nazistas. Ele se nega a responder e, em uma sequência sem cortes, é morto violentamente a golpes de bastão de beisebol. Seus companheiros não são apenas mortos, mas tem seus escalpos cortados à maneira apache, e a suástica nazista desenhada, à ponta de faca, na testa. Este é "Bastardos Inglórios", o mais novo filme de Quentin Tarantino, que é daqueles diretores que devem ser forçosamente citados para que o espectador possa ter um parâmetro sobre o que está assistindo. Ver um "filme de Tarantino" significa, grosso modo, não ver um filme passado no mundo real. O mundo de Tarantino é passado dentro de um fotograma de celulóide de 35mm, seus personagens sabem que são personagens e a História (com H maiúsculo), deve ser vista sob o recorte não do Historiador, mas do Crítico de Cinema. Mas será que isso o exime da responsabilidade pelo que coloca na tela? Seria esta imoralidade própria do filme ou de Tarantino?

Examinando seus filmes anteriores, particularmente Pulp Fiction e Kill Bill, havia certa moral em seus personagens, mesmo que uma "moral cinematográfica". O boxeador interpretado por Bruce Willis chega, por um momento, a lamentar ter matado seu oponente na luta em que ele foi pago para perder. Jules, interpretado por Samuel L. Jackson, é o personagem que passa pela maior mudança da trama. Ele é um frio matador de aluguel que tem uma "iluminação" que o faz deixar a vida de crimes. Já seu colega Vincent (John Travolta) continua igual e morre de forma estúpida, ao deixar a arma na pia da cozinha enquanto vai ao banheiro. Mesmo em Kill Bill, o protótipo do filme de vingança, há o que se poderia chamar de "honra entre ladrões". Bill (David Carradine) mata os presentes a um casamento porque a Noiva (Uma Thurman) o havia abandonado. Mas ela sobrevive e mesmo em coma no hospital tem a vida poupada, no último momento, porque Bill acredita que ela merece algo melhor. Um dos capangas da gangue de Bill, interpretado por Michael Madsen, chega a dizer que a Noiva tem razão e que eles merecem morrer pelo que fizeram.

Os "bastardos inglórios" do novo filme não têm nada disso e, curiosamente, são o ponto fraco da produção. Liderados por Brad Pitt e claramente baseados nos "Doze Condenados", são todos tão inexpressivos que o espectador chega a confundir um com o outro. A exceção é também "tarantinesca", um alemão que entrou no exército apenas para matar (em outra série de cenas violentamente gráficas) companheiros nazistas. O que salva "Bastardos Inglórios" de ser um desastre, além do claro talento de Tarantino em escrever diálogos e dirigir algumas cenas de tirar o fôlego, é seu amor ao cinema. "Bastardos Inglórios" está cheio de referências cinematográficas, a começar pela vinheta antiga da Universal Pictures. O primeiro capítulo (outra das marcas do diretor) é uma clara homenagem ao diretor italiano Sergio Leone, e uma das melhores sequências da produção. É também a que apresenta o vilão do filme, o "caçador de judeus" Hans Landa, muito bem interpretado por Christoph Waltz. Landa é daquele tipo de vilão "charmoso", que me lembrou um pouco o Bellocq de "Caçadores da Arca Perdida". Bem falante, culto, refinado, Landa é um verdadeiro cavalheiro até o momento em que começa a matar.

Do massacre promovido por Landa neste primeiro capítulo foge a jovem judia Shosanna (Mélanie Laurent), que é a personagem mais humana do filme. Ela foge para Paris e se transforma na dona de um cinema que vai se tornar o palco do clímax da história. Assediada por um herói nazista chamado Zoller (Daniel Brühl), ela é obrigada a usar seu cinema para a estréia do novo filme de Joseph Goebbels (Sylvester Groth), Ministro da Propaganda de Adolph Hitler. Shosanna então planeja se aproveitar da ocasião para vingar a morte da família, visto que o cinema estaria cheio de altos oficiais da hierarquia nazista. Tarantino, em uma metalinguagem bem interessante, transforma a própria película cinematográfica (na época altamente inflamável) na arma de vingança de Shosanna. Só que Tarantino apresenta este plano de forma falha, e diria até preguiçosa. Ele usa cenas de um pseudodocumentário para mostrar as propriedades incendiárias da película, algo totalmente desnecessário. Desnecessária também a sequência em que ele mostra como Shosanna faria para conseguir revelar um rolo de filme 35mm, com som, que ela planeja mostrar para os nazistas. Em um filme tão absurdo, qual a necessidade de explicar este detalhe? A resposta está no fato de que Tarantino é um "nerd" cinematográfico.

A estréia do filme de Goebbels também chama a atenção dos Aliados, que enviam os "bastardos", auxiliados por uma atriz alemã (a bela Diane Kruger), para o local. Há uma sequência ótima, passada dentro de uma taverna, que é um primor de roteiro e direção. Notem como Tarantino constrói a sequência tijolo por tijolo, mostrando como tudo vai dar espetacularmente errado.

E chegamos então ao final, em que Tarantino quebra todas as regras possíveis e mergulha fundo em uma realidade alternativa que literalmente reescreve a História. E aqui retornamos à questão do início deste texto. O que Tarantino está querendo dizer? A II Guerra Mundial, que começou há exatos 70 anos, foi um dos eventos mais sangrentos dos últimos séculos e definiu a ordem mundial em que ainda vivemos. Berlim foi liberada pelo exército russo e depois pilhada e dividida entre os americanos e soviéticos. Os ingleses tiveram o país praticamente destruído e perderam milhares de civis e soldados. Hitler se matou longe dos olhos da Humanidade. No filme de Tarantino, tudo muda. Os britânicos quase estragam tudo durante a sequência na taverna. São os heróis americanos, judeus, se servido de um acordo "imoral" com o nazista Landa, que terminam a guerra dando ao mundo do cinema uma das cenas mais delirantes de vingança já mostradas nas telas. O próprio Adolph Hitler é visto sendo varado por milhares de tiros de metralhadora. Ao final, Brad Pitt, e Tarantino, dizem: "Acho que esta foi minha obra prima".

Assim, "Bastardos Inglórios" é um filme que incomoda. O que é ótimo, toda obra que pretende dizer alguma coisa é incômoda. Mas mesmo cinematograficamente falando é falha. Há momentos estupendos isoladamente, mas que não formam um filme bem amarrado como foi Pulp Fiction, por exemplo. Moralmente, o filme é muito discutível. A não ser que Tarantino esteja, no fundo, fazendo uma crítica ao "modo americano" de ser e de agir. Mas quem se importa? O importante é matar da forma mais violenta possível.


domingo, 27 de setembro de 2009

Amantes

Leonard (Joaquin Phoenix) acompanha Michelle (Gwyneth Paltrow) até o centro de Manhattan, de metrô. Os dois conversam amigavelmente. Leonard é engraçado, faz piadas, Michelle ri, pede para eles trocarem telefones. Ao saírem para a rua, Leonard a vê entrando em uma Mercedes de luxo, com motorista particular. No rosto de Leonard, por um segundo, vê-se que ele sabe que ela é "areia demais para o seu caminhão", mas ele também sabe que já foi fisgado.
"Amantes" é dirigido por James Gray, que em 2007 fez o competente "Os Donos da Noite" (também com Joaquin Phoenix), um filme que pouca gente viu mas que é muito bom. Enquanto aquele era um filme policial, com muita ação e violência, este é mais íntimo, voltado para os complicados caminhos dos relacionamentos humanos.

Em um bairro do Brooklin, Nova York, Leonard é um homem que ainda mora com a família e que, no início do filme, tenta se matar de maneria estúpida, se jogando nas águas frias da baía, de uma ponte baixa. Não é a primeira vez que ele tenta o suicídio. Seus pulsos carregam cicatrizes de tentativas anteriores, causadas pelo abandono de sua noiva, dois anos antes, e por um transtorno bipolar. Apesar de adulto, Leonard é o filho único de uma família judaica típica de Nova York, com a mãe superprotetora (a excepcional Isabella Rosselini) e o pai amoroso (Moni Moshonov), e ele está sufocado pela presença deles. Eles têm uma lavanderia rápida que está sendo incorporada a uma empresa maior, e os pais de Leonard estão tentando juntá-lo à filha dos donos, Sandra (Vinessa Shaw). Ela é "boa moça", bonita e claramente interessada nele que, por sua vez, está enfeitiçado por Michelle. É um drama muito bem escrito com tons dramáticos e por vezes exagerados. Todos aparentam ter mais de trinta e cinco anos, mas ainda agem como adolescentes inexperientes, à procura do que acham que é o amor.

Michelle, alta, loira e bonita, é amante do chefe, casado e rico, que paga pelo seu apartamento, que fica do outro lado da janela de Leonard. Ela gosta de sair para as baladas, tomar extasy e está acostumada a receber atenção. Leonard, carente e perdido, escuta dela a frase que todo homem odeia, de que ele é "como um irmão" para ela. De Sandra escuta que ela quer "tomar conta dele", o que também não é muito bom de se escutar de uma mulher. Já lhe basta a mãe, que chega a deitar no chão do corredor para vigiá-lo por debaixo da porta do quarto.

A ação acontece geralmente em ambientes internos e há momentos tipicamente teatrais, como quando Leonard se esconde atrás de uma porta para que o namorado de Michelle não o veja. É como se a vida fosse o palco de um drama, ou de uma ópera. E há o terraço do prédio, para onde Leonard e Michelle sobem e acontecem duas cenas chave do filme. Há um contraste importante entre o fundo do mar (o ponto mais baixo para Leonard) e o terraço alto do prédio. No meio do caminho, no que poderia ser chamado de "o mundo real", está Sandra e a promessa de carinho e estabilidade. O final pode ser encarado de várias formas, de cínico a realista. Fica um gosto amargo na boca ao final da sessão, mas é um filme acima da média.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Clube do Filme

O escritor canadense David Gilmour (não confundir com o guitarrista do Pink Floyd, de mesmo nome) estava tendo problemas com o filho adolescente. Jesse, de 16 anos, mostrava total desinteresse pela escola. Um “garoto” de um metro e oitenta de altura, ele faltava às aulas para ir ao cinema, para namorar ou sair com os amigos. Mas, apesar de inteligente e entusiasmado, não encontrava motivação para aguentar a rotina escolar diária.

O pai, em um momento de desespero, lhe fez uma “proposta indecente”: ele gostaria de abandonar a escola? Jesse não pensou duas vezes e aceitou mais rápido do que seu pai gostaria. Mas havia algumas regras: Jesse não poderia se envolver com drogas em hipótese alguma e teria de assistir a três filmes por semana com o pai. Esta é a trama básica de “O Clube do Filme”, livro lançado no Brasil pela Editora Intrínseca após grande sucesso lá fora. Não é um trabalho de ficção. Gilmour, que é roteirista, escritor e crítico de cinema, conta de forma apaixonada, mas leve, como foi este tempo que teve perto do filho adolescente, um luxo que poucos pais têm hoje em dia.

A seleção de filmes (a lista chega a 113 obras) é bem eclética. Filmes clássicos como “Cidadão Kane” ou “Casablanca” são intercalados com mais recentes como “Instinto Selvagem”. Havia os filmes da nouvelle vague francesa, em que a cena final de “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, serve de paralelo com a situação de Jesse; suspenses de Alfred Hitchcock (como “Intriga Internacional”, “Os Pássaros” e “Psicose”); comédias e dramas de Woody Allen (“Crimes e Pecados”, “Manhattan”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”); uma série de filmes de terror para tentar fazer Jesse se esquecer de uma namorada (“O Exorcista”, “O Massacre da Serra Elétrica”, “O Iluminado”). Havia também sessões em que Gilmour escolhia um tema, como “O talento aflora”, e mostrava filmes em que algum desconhecido se destacava, como Samuel L. Jackson em “Febre na Selva”, de Spike Lee, ou Sean Penn em “Picardias Estudantis”, de Amy Heckerling, Audrey Hepburn em “A Princesa e o Plebeu”, de William Wyler ou o enorme talento que um jovem diretor chamado Steven Spielberg mostrou em seu primeiro filme, “Encurralado”.

A linguagem é simples e fluente. Gilmour não só conta os problemas do filho como os próprios. Desempregado por um longo período, um psicólogo provavelmente diria que ele resolveu tirar o filho da escola para lhe fazer companhia. É interessante também notar as semelhanças entre as “falhas” do pai refletindo no filho, como um gosto exagerado pela bebida e, sim, certa irresponsabilidade em lidar com algumas situações. O livro também é um retrato do quão difícil é ser um homem adolescente tendo que lidar com uma série de desilusões amorosas. Uma “personagem” recorrente é uma garota chamada Rebbeca (nome que, provavelmente, Gilmour usou em homenagem ao grande filme de Hitchcock). Ela é estonteante, e sabe disso, e usa o charme para fazer um jogo de sedução com Jesse que dura meses.

Em vários momentos acompanhamos as dúvidas do pai em relação ao tipo de educação que está dando ao filho. Inevitavelmente ele acaba se envolvendo com drogas, principalmente após desilusões amorosas, e em dado momento Jesse confronta o pai sobre o que ele acha ser uma “influencia excessiva” sobre ele. “O Clube do Filme” é uma leitura gostosa e cheia de citações cinematográficas, por vezes profundas, em outras superficiais, mas sempre interessante e divertido.